Conheça a disrupção e seus impactos na vida e no campo

Jun 27
Conheça a disrupção e seus impactos na vida e no campo

Entrevista com o vice presidente da Alltech mostra o conceito e as mudanças causadas pela tecnologia

“As inovações tecnológicas têm a habilidade de transformar todos os elos da cadeia alimentar, desde a semente até o garfo”. O autor dessa frase e diretor de inovação da Alltech, Aidan Connolly, acredita que a disrupção - termo muito utilizado quando se fala em tecnologia - já está presente no agronegócio e deve crescer ainda mais.

Confira a entrevista a seguir para compreender o conceito de disrupção e qual é a velocidade das mudanças no setor.

Pergunta - “Rompendo os disruptores” foi o tema de sua palestra no ONE 18. Esse termo pode soar um pouco caótico mesmo, ou as pessoas apenas o interpretam de forma muito literal?

Aidan Connolly - Embora a Alltech tenha se tornado uma grande organização, que atualmente emprega mais de 5 mil pessoas, nós ainda estamos sob o comando de um empreendedor. Somos coordenados pelos ideais do homem que criou e iniciou a empresa, o Dr. Pearse Lyons. E ele sempre gostou muito de “disromper” as coisas.

Quem trabalha para a Alltech, sabe disso. Minha palestra refletiu o fato de que ele vê o mundo se transformando completamente e que o pensamento convencional não vai resolver os problemas que temos enfrentado atualmente. Nós precisamos pensar de forma diferente em relação a solução de nossos problemas e, se nós o fizermos, vamos nos beneficiar das soluções.

O conceito

Pergunta - O termo disrupção é considerado a palavra do momento, embora o criador da teoria tenha reclamado que está sendo usado de forma equivocada. Em sua opinião, qual é a definição correta?

Aidan Connolly - A disrupção é um tema que está em voga e, obviamente, é comum escutar pessoas, universidades, acadêmicos falando sobre isso. Mas, na prática, eu sinto que a inovação é fazer a mesma coisa, porém melhor, enquanto a disrupção é fazer as coisas de uma forma que torne o que fazemos hoje obsoleto, e essa obsolescência dos modelos antigos é um clichê, não há dúvida sobre isso .

Nós já vemos uma grande quebra na forma em que nos locomovemos, temos a quebra na forma com que vemos filmes com o streaming - as empresas estão lutando para lidar com o nível de disrupção da cena, principalmente na área de alimentação, vendo shoppings vazios, entre outros. O nível de disrupção que estamos acompanhando requer que todos pensemos de forma diferente sobre o que fazemos e também que nos preparemos para que os negócios não sejam mais da forma com que estamos acostumados.

O ritmo da disrupção parece estar bem acelerado. É possível que logo algo apareça e rompa o disruptor?

Aidan Connolly - Claro. E, às vezes, a disrupção age como uma esteira. Você está andando e quando você está prestes a chegar em um lugar, tem que continuar senão começa a ser puxado para trás. Não há dúvidas que o nível de mudanças na sociedade não permite que você encontre um novo modelo de negócios e espere mantê-lo por 10 ou 15 anos. É preciso estar em um caminho contínuo de mudanças.

O que eu diria é que talvez não seja tão diferente quanto nós pensamos. Nós passamos 200 mil anos sendo caçadores-coletores, só começamos a cultivar há cerca de 10 mil anos e isso levou ao desenvolvimento de cidades, civilização, tempo para pensar, além de arte,  inovação e todas as coisas criativas que fazemos hoje em dia. Temos que admitir que, embora estejamos vendo uma aceleração nesse processo, - algo que pareceria loucura nos últimos 10 anos, isso vai continuar. Inclusive, pode ficar ainda mais rápido.

Investimento

Pergunta - Quem investe em tecnologias disruptivas precisa ser tolerante aos riscos?

Aidan Connolly - Muitas pessoas usam a frase “Estou querendo investir em um unicórnio. Então, estou procurando o unicórnio e tentando descobrir o que ele é”. Mas é claro que o unicórnio representa aquela oportunidade única de negócio, na qual é feito um investimento de  US$ 10 mil ou US$ 100 mil e magicamente, depois de alguns anos, se transforma em algo que vale  US$ 100 milhões ou  US$ 1 bilhão. A realidade é que há muito poucos desses casos por aí e, obviamente, são amplamente divulgados nos jornais e na mídia, o que faz com que as pessoas fiquem empolgadas.

Se sou um investidor, tenho que admitir que vão existir algumas ações bem sucedidas, algumas falhas e, eventualmente, algumas perdas. É preciso manter uma abordagem de portfólio de como você investe. Ou seja, é melhor investir  US$ 10 mil dólares em um projeto ou investir  US$ 1 mil dólares em 10? Em minha opinião, ter 10 projetos é sempre o melhor caminho.

Claro que existem pessoas que conseguem ter percepções únicas sobre o futuro, mas a grande maioria de nós não tem tanta sorte. E, dessa forma, temos que abraçar o que vemos como oportunidades, mas também estar preparados para os riscos.

Campo e tecnologia

Pergunta- Em um artigo recente, você identificou oito tecnologias disruptivas com o poder para transformar a agricultura. Quais são elas?

Aidan Connolly - Espero conseguir lembrar de todas as oito assim, de cabeça. Mas sei que temos softwares de realidade virtual, realidade aumentada, inteligência artificial. Sem dúvidas, a sociedade tem pensado muito sobre a internet das coisas, reunindo todos eles. Na minha perspectiva, todas essas tecnologias têm grandes chances de mudar a forma com que os todos os tipos de negócio são realizados, mas o espaço entre onde estamos hoje e onde poderíamos estar nas indústrias alimentícias e na agricultura é ainda maior.

Eu acredito que os ganhos possam ser ainda maiores. Você pega uma tecnologia como a blockchain, que uma grande parte das pessoas ainda não sabe o que é. Em minha definição, é como se fosse um bitcoin que permite a ter transparência em um sistema no qual você não sabe quem o fabrica, quem modifica, quem embala e quem entrega. O sistema alimentício é um exemplo clássico disso. Mas é preciso ter transparência para ter certeza de que existem consumidores e que podem ser encontradas falhas.

Ou seja, a blockchain é outra transformação da tecnologia. Em minha perspectiva, todas essas áreas podem transformar a alimentação e a agricultura. Algumas delas estão mais próximas de serem implementadas. Por exemplo, os robôs já estão sendo utilizados em fazendas para ajudar vacas na produção de leite, sensores para detectar a quantidade de água no solo para uma melhor irrigação. Mas outras, como a realidade virtual, estão distantes e vão necessitar de investimentos maiores - nesse caso, estaremos olhando para o futuro, não para hoje.

Pergunta - Entre elas, há uma tecnologia que você acha realmente convincente?

Aidan Connolly - As pessoas falam muito sobre a internet das coisas e isso é o ponto central de tudo. Isso pode ser visto no feedback de dispositivos da informação que estão sendo coletados, trazidos de volta para o sistema, para os computadores e faz com que a empresa seja capaz de analisar e entender o que está sendo visto. Mas, fundamentalmente, acho que a inteligência artificial é a que eu escolheria. Ela é a mais transformadora, mais disruptiva e que mais me empolga dentre as tecnologias.

Disrupção digital

Pergunta - De acordo com um questionamento que você levantou, considerando que a  inteligência artificial tem o potencial de revolucionar muitas áreas de uma empresa, incluindo o processo de decisões e de orçamentos, de que forma é melhor para uma empresa investir e alavancar nessa tecnologia?

Aidan Connolly - Essa é uma boa questão. Eu acho que você tem que ser extremamente realista para compreender o que é a tecnologia e quem está por trás dela. E, é claro, a maioria das pessoas não se sentem à vontade para perguntar a alguns desses algoritmos de escrita ou fórmulas matemáticas: "Como eu uso isso? O que isso faz?".

Mas a tecnologia tem a habilidade de transformar a vida e transformar, particularmente, a maneira com que trabalhamos. Então nós realmente temos que utilizá-la e fazer a pergunta clássica “o que isso vai fazer por mim e pelo meu negócio?” ou também “como isso vai me ajudar a ser mais eficiente ou a um menor custo?”.

Acompanhar exemplos de onde a inteligência artificial está sendo usada hoje é algo muito importante. Enquanto muitos de nós nos sentimos muito desconfortáveis em tentar entender a tecnologia, não vejo nenhum ponto dos negócios hoje que não seja afetado por ela. Então, acho que é importante para todos nós lermos o máximo que pudermos, pesquisarmos essas áreas. Existem muitos artigos online disponíveis na internet. E, é preciso lembrar, não confie em apenas um. Leia muitos deles.  

Fracasso

Pergunta - Quão importante é para o empreendedor aceitar riscos e, até mesmo, aceitar a possibilidade de falhar?

Aidan Connolly - É absolutamente essencial. Se você pensar nas empresas que acompanhei em meu curto espaço de tempo olhando para isso - desde a criação do The Pearse Lyons Accelerator -, é surpreendente ver quantas coisas podem acontecer que simplesmente não foram previstas. De repente alguém pode ficar muito doente, por exemplo. Eu já vi alguém que morreu de câncer inesperadamente aos 40 anos e ninguém sabia que a pessoa estava montando seu próprio negócio. Também vimos situações em que os clientes âncora saíram do mercado, justo aquele que é o mais confiável.

Então é preciso aceitar isso, se estivermos falando sobre 10, 100 ou 1000 empresas - uma certa porcentagem delas vai estar passando por coisas que não são previsíveis. E voltando à minha sugestão de adotar uma abordagem de portfólio de como você investe ou como você os seleciona, obviamente pode fazer o melhor possível para encontrar as empresas que provavelmente terão sucesso. Mas se você tentar escolher uma única empresa, acho que está sempre assumindo um risco, um grande risco de que sua estratégia de investimento não seja bem-sucedida.

Pergunta - E se as falhas se tornam realidade, o que deve ser feito?

Aidan Connolly - Esse deveria ser um dinheiro que você poderia perder. Digo, essa é a essência do negócio. Recentemente, conheci uma empresa que investiu duas vezes a mais do que o recomendado em tecnologia e foi dito que eles poderiam transformar a maneira com que a fábrica funcionava. Em um caso, investiram US$ 600 mil, no outro US$ 300 mil e, ambas as vezes, o software não cumpriu sua promessa. Então eles perderam US$ 1 milhão. Se eles não pudessem pagar US$ 1 milhão, não deveriam ter investido. É claro que, eles acreditavam que, se tivessem sucesso, isso os colocaria em uma vantagem competitiva sobre os outros em seus negócios, mas, ao mesmo tempo, seria necessário entender que muitas dessas tecnologias não seriam bem-sucedidas.

Impacto ao consumidor

Pergunta - Como a disrupção no setor agrícola vai afetar a vida do consumidor?         

Aidan Connolly - Pode afetar de várias maneiras. A mais óbvia, que inclusive foi uma surpresa para mim, foi ver uma impressora 3D imprimindo alimentos. Se você acha isso difícil de acreditar, imagine um bolo sendo produzido onde a máquina só está se movendo em círculos e usando ingredientes alimentícios para imprimir o bolo e criá-lo de forma perfeita. Será que poderemos produzir hambúrgueres e fritas dessa forma no futuro? Não tenho muita certeza, mas por que não?

Do ponto de vista da rastreabilidade, vejo o McDonald's ter uma visita virtual à fazenda. Na Inglaterra, a rede de fast-food disponibiliza o acompanhamento ao alimento que está sendo produzido, as batatas, as carnes, os tomates, só é preciso colocar os óculos e é possível visitar a fazenda sem ter que sair da loja.

Em termos do que está acontecendo na rastreabilidade dos alimentos, mencionei o blockchain anteriormente. Isso é muito importante para lugares como a China. Por exemplo, o Walmart está utilizando essa tecnologia por lá e está trazendo de volta aos Estados Unidos para obter mais rastreabilidade. Quando há problemas em embalagens e até com a segurança dos alimentos, eles sabem onde ocorreu o problema e como resolver esse problema de forma ágil.

Acredito que isso auxiliará a tornar os alimentos mais acessíveis, fazendo com que os alimentos sejam mais seguros. Gostaria de pensar que isso vai dar mais sabor aos alimentos, além de permitir que os consumidores tenham mais autonomia e entendam de onde vem a comida que compram.

 

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