As verdades e os mitos da carne processada - Parte 1

Dez 16
As verdades e os mitos da carne processada - Parte 1

Um novo relatório da Organização Mundial da Saúde, divulgado no final de outubro, afirmou que a carne processada - como bacon, salsichas e presunto - poderia causar câncer, sendo classificada como parte do mesmo grupo do tabaco, bebidas alcoólicas e radiação solar. Este mesmo estudo colocou também a carne vermelha no grupo das substâncias “provavelmente cancerígenas”.

Antes de entrar em pânico e parar de consumir carne, pesquisei mais sobre o assunto e conversei com dois profissionais da Alltech do Brasil, a gerente regional de Suínos, Alessandra Alves de Paulo e o gerente regional de vendas, equipe Bovinos de corte, Fernando Masello Junqueira Franco. A nutricionista especialista em Terapia Nutricional e Mestre em Ciência e Tecnologia de Alimentos, Tereza Cristina Blasi, também me passou informações importantes.

Ela reforça que é preciso bom senso na hora de analisar pesquisas como essa. “Se eu me alimento corretamente - a OMS recomenda 450g de frutas, verduras e legumes ao dia - não há problema algum em comer carne processada esporadicamente. Uma alimentação rica em nutrientes e fitoquímicos tem grande efeito protetor ao organismo e evita que a pessoa sofra com os efeitos prejudiciais dos nitritos, ácidos nitrosos e aminas heterociclíquicas (AHC), compostos que causam câncer em vários locais do trato digestório”, afirma Tereza.

Carne vermelha X carne processada

Para começar, vamos definir cada uma delas. “A carne vermelha refere-se a todos os tipos de carne de músculo de mamíferos, como carne bovina, vitela, porco, cordeiro, carneiro, cavalo e cabra”, me explicou a Alessandra. “Carnes processadas são todas aquelas que sofrem algum tipo de processamento, consumidas, portanto, com aspecto diferente do que seria o ‘músculo’ na carcaça do animal. São exemplos o bacon, a salsicha e embutidos de forma geral”, disse o Fernando.

A carne processada refere-se a toda carne que tenha sido transformada através da salga, secagem, fermentação, defumação ou outros processos que buscam realçar seu sabor ou melhorar sua preservação. Carnes processadas contêm carne suína ou bovina, mas podem conter outras carnes vermelhas, aves e vísceras.

Segurança e qualidade

A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA, São Paulo/SP) publicou um comunicado em resposta ao estudo da OMS no qual destaca que os produtos cárneos processados feitos no Brasil são seguros e seguem as mais rígidas normas internacionais de segurança alimentar. A Alessandra e o Fernando concordam. “Acredito que o Brasil possua normas de fiscalização e qualidade semelhantes aos exigidos pelos principais mercados consumidores e indústrias aptas a produzirem alimentos destinados ao consumo humano”, disse Alessandra. “Do ponto de vista de segurança alimentar, nossa indústria não perde em nada para nenhum outro país do mundo, portanto o consumo destes alimentos é seguro”, completou Fernando.

Tudo é questão de moderação

Para o professor da Universidade de Oxford Tim Key, que também é membro da organização beneficente britânica voltada para pesquisa do câncer, Cancer Research UK, tudo é questão de moderação. A ABPA ressaltou, ainda em nota, que o próprio coordenador do estudo, Kurt Straif, destaca que o risco de desenvolver câncer frente à ingestão de cárneos processados é pequeno, ocorrendo apenas diante de um consumo descontrolado, em desequilíbrio com uma dieta saudável. O consumo excessivo de quaisquer nutrientes poderá ser nocivo à saúde.

“Os estudos estão aí para nos guiar a respeito do que podemos fazer para reduzir os riscos, mas o que realmente chegamos à conclusão em cada estudo realizado, é que há mais a se estudar e que tomar medidas drásticas, como não consumir carne vermelha e carne processada, é muito prematuro diante de tantos outros pontos a serem analisados”, afirma Alessandra.

Para o Fernando, “é importante esclarecer que esses estudos de correlação são os responsáveis pelo vai-e-vem dos alimentos na lista de saudáveis ou maléficos. Vários alimentos tidos como maléficos à saúde no passado, após corretos estudos de causa e efeito, se mostraram extremamente benéficos para a saúde e inclusive passaram a ser recomendados pela OMS como parte de uma dieta saudável, como é o caso do ovo e do leite”. O segredo é o equilíbrio, nem de mais, nem de menos.

Fernando exemplifica isso de uma forma mais clara. “A radiação solar (que não tem nada de ‘processada pelo homem’) é extremamente importante para manutenção da vida no planeta como um todo e, para a saúde humana, é primordial para a geração de vitamina D no organismo. A falta de exposição solar leva a graves distúrbios metabólicos, inclusive o raquitismo, resultado da deficiência de vitamina D que impede o crescimento normal de crianças e enfraquece os ossos nos adultos. Contudo, a exposição exagerada à radiação solar é um fator conhecido (não com correlação, mas sim com estudos de causa e efeito) de aumento no risco de câncer de pele. Ela é ao mesmo tempo o remédio e o veneno, a depender da quantidade”.

Mas vamos deixar para falar mais sobre esse assunto no próximo post!

Um abraço,

Zé Mignon



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